Pátria em disputa: o que fizeram com o 7 de Setembro — e como podemos reconquistar

Bandeira do Brasil sobre fundo preto com a inscrição "07 de setembro" em giz

Nas últimas décadas, a data da independência foi transformada em ferramenta de exclusão e enfrentamento. Este artigo convida a resgatar seus sentidos populares, democráticos e coletivos.

Por muito tempo, o 7 de Setembro parecia um feriado protocolar. Data de desfiles militares, hino nacional, bandeiras hasteadas nas escolas. Para muita gente, um feriado qualquer. Para outras, um símbolo de amor ao país.

Porém, nos últimos anos essa data mudou de lugar na nossa percepção coletiva. Ela deixou de ser apenas um marco cívico para se tornar campo de disputa ideológica — e até palco de ameaças à democracia.

  • O que aconteceu com o 7 de Setembro?
  • Como ele foi apropriado por discursos autoritários?
  • E, principalmente: como podemos resgatar essa data como um símbolo de participação popular e compromisso com o bem comum?

O 7 de Setembro como feriado cívico tradicional

O Dia da Independência foi oficializado como feriado nacional no final do século XIX, ainda no Império. Mas foi durante a República que o 7 de Setembro passou a ser usado como ferramenta cívico-pedagógica.

A ideia era formar um “espírito patriótico” — especialmente entre os mais jovens. E para isso, desfiles escolares, fanfarras, encenações da Proclamação da Independência…
Tudo fazia parte de um ritual que visava construir a ideia de Brasil como nação unificada e soberana.

Mas havia um problema: esse Brasil mostrado nos desfiles era branco, masculino, militarizado e silencioso quanto às desigualdades.

Povos indígenas, comunidades negras, mulheres, trabalhadores rurais — quase nunca apareciam nas celebrações. E quando apareciam, era como “figurantes” da história oficial.

O resultado foi uma narrativa de independência que excluía quem mais lutou (e luta) por liberdade de verdade.

A captura simbólica: como a extrema direita se apropriou da data

De 2019 a 2022, o 7 de Setembro passou por uma transformação profunda no imaginário coletivo brasileiro. Aquilo que, por décadas, foi visto como um feriado cívico tradicional — e até burocrático — foi tomado por um novo uso: o da mobilização política autoritária.

Sob o governo de Jair Bolsonaro, a data foi reconvertida em espetáculo de apoio pessoal, carregada de símbolos militares, discursos antidemocráticos e ataques às instituições.

O desfile militar deu lugar à motociata. O hino nacional passou a ser trilha para confrontos. As faixas nas ruas não exaltavam a Constituição — exigiam intervenção. E a bandeira do Brasil, que deveria representar todos, virou uniforme de uma torcida que se pretendia “dona do país”.

O Estado encenando o enfrentamento

Não foi uma apropriação espontânea da população. Foi um processo construído com recursos, organização e incentivo oficial.

Em 7 de Setembro de 2021, por exemplo, o então presidente da República discursou em Brasília e São Paulo com ataques explícitos ao Supremo Tribunal Federal, incentivando a ruptura institucional.

Na prática, a data foi transformada em comício, com tom de ameaça, e não de celebração da democracia. O resultado: tensão, polarização, violência simbólica.

Quando símbolos viram armas

A apropriação da data não parou nas palavras. Ela se materializou em símbolos e gestos:

  • A bandeira nacional virou uniforme de ataque.
  • O verde e amarelo virou filtro ideológico.
  • O grito de “liberdade” passou a ser usado contra os próprios direitos coletivos.

Pior: tudo isso foi feito em nome da pátria — como se questionar o governo fosse um ato de traição ao país.

A verdade é que foi um sequestro simbólico. E como todo sequestro, gerou silêncio, medo e distorção da realidade.

O preço da distorção

A consequência mais grave dessa captura simbólica foi a confusão entre patriotismo e autoritarismo.

  • Quem criticava os abusos de poder era acusado de “odiar o Brasil”. 
  • Quem usava a bandeira com outro sentido era excluído da narrativa. 
  • Quem queria falar sobre fome, racismo ou desigualdade era chamado de “inimigo da pátria”.

Essa inversão transformou o 7 de Setembro em campo de guerra simbólica. Mas o Brasil não é um time com camisa única. E a democracia não é feita de obediência cega — ela exige pluralidade, escuta e crítica.

O risco do patriotismo sem democracia

O amor ao país pode ser uma força bonita. Só que quando esse sentimento é usado para silenciar vozes, perseguir adversários ou justificar autoritarismo, ele deixa de ser amor — e vira dominação disfarçada de orgulho.

É o que chamamos de patriotismo sem democracia:um discurso que exalta a pátria, mas nega o povo.

Quando o “amor à bandeira” vira exclusão

Nos últimos anos, o discurso do “patriotismo verdadeiro” passou a ser usado como linha divisória:

  • Quem apoia o governo veste verde e amarelo;
  • Quem critica é “comunista”, “traidor” ou “anti-Brasil”.

Mas… e se o verdadeiro amor ao país for justamente o desejo de vê-lo mais justo, plural e solidário?

O risco desse falso patriotismo é transformar opinião política em identidade nacional. Ou pior: usar símbolos públicos como armas privadas de poder.

A bandeira não é de um grupo só

A bandeira brasileira representa todos os brasileiros — independentemente do voto, da fé, da classe social ou da cor da pele. Ela não pertence a um partido. Nem a um governo.
É um símbolo da República, da pluralidade, da convivência possível entre diferentes.

Portanto, quando esse símbolo é capturado por um grupo, a mensagem é clara:
“Só é brasileiro quem pensa como nós.”

Isso não é patriotismo. É exclusão — e, muitas vezes, violência simbólica.

Liberdade sem responsabilidade é licença para o abuso

Muitos dos discursos recentes durante o 7 de Setembro foram feitos em nome da “liberdade”. Mas qual liberdade?

Liberdade para atacar jornalistas? Para ameaçar instituições? Para propagar mentiras nas redes sociais?

A democracia pressupõe sim liberdade. Mas uma liberdade com responsabilidade coletiva, com limites éticos e com o compromisso de não ferir os direitos dos outros.

Quando a liberdade é usada como desculpa para autoritarismo, ela deixa de ser libertadora — e vira instrumento de opressão.

Ser patriota é querer um país melhor para todos

Quem ama o Brasil quer ver o povo comendo bem, estudando, sendo respeitado. Quer floresta em pé, trabalho digno, saúde acessível, política pública funcionando.

Ou seja, ser patriota é olhar para a desigualdade e se indignar. É lutar contra o racismo, contra a fome, contra o abandono das periferias. É cuidar do comum — da rua, da praça, da escola, do SUS. Se o 7 de Setembro não nos lembra disso, ele perde o sentido.

Como resgatar o 7 de Setembro como símbolo popular e democrático

Nem todo símbolo está perdido, pois, mesmo quando é sequestrado, um símbolo pode ser reconquistado.

Então, talvez seja tempo de reconhecermos que o 7 de Setembro ainda pode voltar a ser um espaço de celebração do povo, da pluralidade, da justiça social e da democracia.

Para isso, precisamos tirar essa data da mão de quem a transformou em arma — e devolvê-la ao chão onde ela deveria ter nascido: o chão da luta popular.

O que pode ser feito — de verdade?

Esse resgate não virá de cima. Não vai depender de uma nova “narrativa oficial”. Ele começa onde a política real acontece: na base, na comunidade, na cultura, na escola, na arte, na resistência cotidiana.

Aqui estão algumas formas possíveis de ressignificar o 7 de Setembro como uma data viva, plural e democrática:

1. Transformar a data em espaço de denúncia e memória

O 7 de Setembro pode ser um dia para lembrar que a independência de 1822 não chegou a todos. Pode ser um dia para dar nome aos invisibilizados da história. Para gritar “Democracia sim!” nas ruas, nas redes, nas escolas.

Exemplo real: Marchas do Grito dos Excluídos, organizadas por movimentos populares em diversas cidades desde os anos 1990, que este ano traz o lema “Cuidar da Casa Comum e da Democracia é luta de todo dia”.

2. Promover ações educativas nas escolas e comunidades

Em vez de encenar o “Grito do Ipiranga” com crianças vestidas de soldados, que tal refletir sobre o que significa ser livre em um país desigual?

Atividades possíveis:

  • rodas de conversa sobre democracia, direitos, meio ambiente;
  • oficinas artísticas com releituras da bandeira e do hino;
  • resgate de figuras históricas esquecidas (como Maria Felipa, Dandara dos Palmares, os povos indígenas que resistiram ao colonialismo).

3. Reocupar os símbolos nacionais com novos sentidos

A bandeira, o hino, o brasão — todos esses símbolos podem (e devem) ser ressignificados.

  • Que tal usar a bandeira para defender o direito à educação pública?
  • Que tal cantar o hino com versos atualizados para incluir o povo preto, os povos originários, as mulheres?
  • Que tal vestir o verde e amarelo para proteger a floresta, não para invadir o Congresso?

Quando o povo reocupa o símbolo, ele ganha vida de novo.

4. Criar expressões culturais alternativas para a data

A arte é um lugar potente de disputa simbólica. Um slam, uma exposição fotográfica, uma peça de teatro de rua, uma instalação em praça pública, um sarau popular — tudo isso pode ser forma de dizer:

“Essa pátria também é nossa.”

Cidades como Recife, São Paulo, Belém e Porto Alegre têm histórico de usar o 7 de Setembro para festivais, encontros de cultura popular, protestos criativos e celebrações comunitárias.

5. Reforçar o vínculo entre independência e democracia

Por fim, talvez o mais importante: lembrar que independência sem democracia é ilusão. A verdadeira independência está no direito de existir plenamente, de discordar, de votar com liberdade, de ser respeitado.

Em vez de armas nas mãos, queremos livros, políticas públicas, debate saudável e pão na mesa. Em vez de gritos de ódio, queremos escuta, cuidado e projetos comuns.

Não queremos menos símbolo.

Queremos mais sentido. Esse chamado não está falando de um abandono ao 7 de Setembro. Mas fala sobre ampliá-lo, abrindo espaço para mais vozes, mais histórias, mais sonhos.

Claro que não será um resgate imediato. É preciso começar com gestos simples:
→ Um texto como este.
→ Uma conversa na escola.
→ Uma bandeira levantada com um novo significado.

A pergunta que fica é: vamos deixar a extrema direita decidir sozinha o que é “pátria”?

A pátria também é feita por nós

O Brasil não cabe num desfile. Não se resume a um hino entoado em uníssono. Não mora apenas nos livros didáticos, nem nos palanques de 7 de Setembro.

A pátria é o que a gente constrói todos os dias.

Ela está nas mãos de quem planta e de quem cozinha. Na luta de quem ensina, de quem cura, de quem limpa, de quem cuida. Na coragem de quem denuncia o racismo, enfrenta o machismo, protege a floresta e reivindica justiça.

A pátria está em quem sonha o Brasil inteiro — não só um pedaço.

É preciso reconectar amor e consciência

A gente não precisa abandonar o amor ao Brasil. A gente só precisa libertá-lo da mentira de que amar o país é obedecer ao poder.

Pois a pátria que queremos é feita de liberdade com justiça, pluralidade com respeito,
participação com responsabilidade. Uma pátria de muitos nomes, muitas cores, muitas vozes.

Uma bandeira que a gente possa carregar com orgulho

O 7 de Setembro pode, sim, voltar a ser um símbolo bonito. Mas isso exige coragem para disputar o sentido da história.

Reivindicar a data. Ressignificar os símbolos. esgatar o futuro.

E lembrar que a independência — se é pra valer — nunca será só um grito do passado.
Ela é um processo coletivo, cotidiano, teimoso. Ela vive em nós.

Vamos juntos?

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A pátria também é feita por quem cuida, por quem pensa, por quem insiste. E o 7 de Setembro também pode ser.

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