Justiça é vingança? Como equilibrar democracia, memória e responsabilização

Montagem artística mostra rosto humano sobreposto a multidão em movimento, simbolizando justiça e memória coletiva

Responsabilizar não é perseguir. É dizer que, numa democracia, ninguém está acima da lei — nem mesmo quem já ocupou o topo do poder. É assim que se protege o presente e se educa o futuro.

Justiça não é vingança

Sempre que uma figura política poderosa começa a ser responsabilizada por seus atos — especialmente quando esses atos colocaram em risco a democracia — a narrativa do “coitadismo de elite” ressurge: “Estão me perseguindo”, “Querem me calar”, “Isso é vingança política”.

Esse discurso, ensaiado e repetido, busca inverter o jogo: transformar quem atacou as instituições em vítima das instituições. Por esta, e tantas outras razões, é preciso afirmar com toda clareza: em uma democracia, responsabilizar líderes não é sinal de autoritarismo — é justamente o oposto.

Julgar autoridades que agiram contra a Constituição não enfraquece o país. Fortalece. Porque justiça, quando feita com base, processo e legalidade, não é revanchismo. É compromisso com a memória e com o futuro.

Responsabilizar é proteger a democracia

Não existe democracia sem limites. E não existem limites sem consequência.

Um sistema político que permite que seus próprios fundamentos sejam atacados — sem reação legal, sem responsabilização, sem reparação — é um sistema que renuncia à própria sobrevivência.

Não se trata de vingança, mas de defesa. E neste sentido, responsabilizar figuras públicas por crimes, abusos ou atentados contra o regime democrático é um dever das instituições. Não para humilhar ninguém, mas para lembrar à sociedade que há regras do jogo que não podem ser rompidas impunemente.

A impunidade não representa “paz social”. Ela representa licença para repetir os mesmos erros — ou cometê-los em escala ainda maior.

O mundo já viu esse filme: lições de outros países

Vários países passaram por momentos difíceis, marcados por violações aos direitos e ataques à democracia. E em muitos deles, a justiça — mesmo que tardia — foi o caminho para a reconstrução.

Argentina

Após anos de ditadura militar, o país iniciou processos de julgamento contra agentes do Estado que torturaram e assassinaram opositores. Mesmo com idas e vindas políticas, as condenações foram marcos fundamentais para a memória coletiva. Hoje, a Argentina é uma das referências mundiais em justiça de transição.

África do Sul

Com a Comissão da Verdade e Reconciliação, liderada por Desmond Tutu, o país promoveu um processo que não apagou crimes do apartheid. Pelo contrário: expôs as feridas à luz pública para que pudessem cicatrizar de forma honesta. Escuta pública, documentação dos abusos e responsabilização simbólica ajudaram a reerguer a nação.

Chile

Durante anos, o ex-ditador Augusto Pinochet gozou de proteção. Mas gradualmente, o país encarou sua história: julgou militares, construiu memoriais e retirou honrarias de violadores dos direitos humanos. A justiça tardia foi também um gesto de compromisso com as próximas gerações.

O que esses países nos ensinam? Que a democracia não é feita só nas urnas. É feita também nos tribunais — quando agem com independência, coragem e respeito às regras.

E se nada for feito?

O silêncio estatal diante de crimes políticos não é neutralidade. É conivência.

Se um líder ataca o sistema eleitoral, incita violência, manipula estruturas de poder e, mesmo assim, não enfrenta consequência institucional — que tipo de mensagem está sendo passada ao restante da sociedade?

A ausência de responsabilização encoraja novos ataques. Gera desconfiança nas instituições. E transforma o que era para ser um ponto final… em uma vírgula para o próximo golpe.

A democracia, quando não se defende, se desmancha.

Memória coletiva precisa de verdade, não de mito

O Brasil tem dificuldade histórica em lidar com seus traumas.

  • A ditadura militar terminou sem justiça para as vítimas.
  • A escravidão acabou sem reparação.
  • A violência policial se normalizou sem consequência.

Criamos uma tradição de “deixar pra lá”. Mas esquecer não une. Esquecer deseduca.

Julgar quem ataca a democracia não é ferir a estabilidade do país. É tentar reconstruir as bases éticas e institucionais de uma nação plural, ferida, mas disposta a curar-se com verdade.

Sem memória reconhecida, o país caminha cego — e vulnerável a qualquer messias autoritário que prometer redenção sem arrependimento.

Justiça para ontem, democracia para o amanhã

Quem teme a justiça, não teme pela democracia. Teme por si mesmo.

  • Não há reconciliação sem responsabilidade.
  • Não há paz sem verdade.
  • Não há estabilidade com impunidade.

O Brasil está diante de uma escolha histórica: fingir que não viu ou assumir que errou — e corrigir o rumo.

A justiça que busca responsabilizar quem tentou ferir a democracia não é perseguição política.  É construção pública de memória, reparação coletiva e sinal de que esse país ainda tem futuro.E esse futuro precisa ter nome, rosto, memória e justiça.  Não para reviver o passado — mas para não repetir as suas sombras.

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