A sedução do grito: quando a política confunde performance com ação

Mulher falando em um megafone durante manifestação pública, com expressão intensa, representando o uso do grito e da performance no discurso político.

Esses dias li um comentário de um militante de esquerda sobre um político também de esquerda que se propõe a liderar uma frente política e social contra os desmandos de um governador acusado de promover robustos prejuízos ao erário público, com largas suspeitas de corrupção. O comentário não criticava a ausência de ação — o político havia protocolado pedidos formais, articulado com parlamentares, construído um caso institucional. A crítica era outra, mais visceral: o tom estava errado. Faltava incisividade, faltava “partir pra cima”. Havia agonia naquela fala serena, como se ela traísse a gravidade do momento.

O incômodo do militante revelava algo sintomático: vivemos tempos em que a forma da indignação importa mais que seu conteúdo. Tempos em que gritar tornou-se sinônimo de agir, e a serenidade é lida como cumplicidade. Esta inversão — em que o teatro político substitui a política substantiva — merece exame cuidadoso. Não para defender moderação como virtude abstrata, mas para entender o que perdemos quando confundimos volume com efetividade.

A economia emocional do grito

A linguagem incendiária oferece algo irresistível: gratificação imediata. Quando um político “parte pra cima”, quando eleva a voz, quando performa fúria, algo acontece na plateia. Há uma descarga, um alívio, a sensação reconfortante de que finalmente alguém está fazendo alguma coisa. O grito funciona como proxy da ação — e nisso reside tanto seu apelo quanto seu perigo.

Porque o grito é, antes de tudo, performativo. Ele não precisa vir acompanhado de estratégia, fundamentação jurídica ou viabilidade política. Sua força está na intensidade emocional, não na precisão do argumento. Por isso mesmo, ele é democraticamente acessível: qualquer um pode gritar, nem todos podem construir um caso técnico sólido sobre irregularidades em operações que comprometem o patrimônio público.

Esta acessibilidade explica parte de sua popularidade. Num cenário político em que a complexidade técnica parece sempre servir aos poderosos, em que “juridiquês” e “economês” funcionam como barreiras de classe, o grito surge como linguagem autêntica do povo. Quem grita não está “falando difícil”, não está escondendo nada atrás de termos técnicos. Está simplesmente expressando o que todos sentem.

O problema é quando esta expressão se torna substituto — e não complemento — da ação efetiva. Quando começamos a medir a qualidade política de alguém não pelo que consegue realizar, mas pela intensidade emocional com que performa indignação.

O que a serenidade perde (e por quê)

No comentário que motivou esta reflexão, havia uma queixa implícita: o político soava burocrático, protocolar, insuficiente para a gravidade do momento. Enquanto o patrimônio público é dilapidado, enquanto a corrupção se espalha, falar em tom moderado parece obsceno. Como se a forma da fala devesse espelhar a gravidade da situação — e apenas o grito fosse capaz de tal espelhamento.

Mas esta intuição esconde uma armadilha. Porque as coisas que efetivamente removem governadores corruptos dos seus cargos — investigações minuciosas, processos jurídicos bem fundamentados, articulações políticas amplas, pressão institucional coordenada — raramente soam como declarações de guerra. Elas soam, frequentemente, exatamente como aquilo que desagrada: técnicas, protocolares, burocráticas.

A linguagem jurídica que embasa um pedido de afastamento precisa ser precisa, não incendiária. A articulação com outros parlamentares requer negociação, não ultimatos. A construção de um caso que resista ao escrutínio de tribunais exige paciência, não pirotecnia verbal. Nada disso é emocionalmente satisfatório de presenciar. Mas é o que funciona.

Há uma suposição implícita de que serenidade indica indiferença, quando frequentemente indica o oposto: domínio profundo da questão, clareza estratégica, responsabilidade com as consequências do que se diz. O político que fala com calma pode estar precisamente demonstrando que entende a complexidade do que enfrenta — e que sabe que soluções reais exigem mais que performance.

O problema da escalada

Quando a retórica inflamada se torna o padrão de legitimidade política, estabelece-se uma dinâmica perigosa: quem não grita suficientemente alto perde espaço para quem grita mais. E como não há limite superior para o volume, a tendência é sempre de escalada.

Esta escalada tem consequências concretas. Primeiro, desloca o debate do conteúdo para a performance. Deixamos de discutir se as evidências são sólidas, se a estratégia jurídica é adequada, se há base legal para o afastamento. Passamos a discutir quem está mais indignado, quem performa melhor a fúria coletiva, quem soa mais “incisivo”.

Segundo, inviabiliza construção de acordos. Política democrática é, essencialmente, negociação entre diferentes. Quando todos estão gritando, ninguém está ouvindo. Quando a postura combativa é a única considerada legítima, compromissos tornam-se traições. A própria possibilidade de solução política — que frequentemente requer concessões mútuas — desaparece.

Terceiro, e talvez mais grave, cria um ambiente em que soluções técnicas complexas tornam-se politicamente inviáveis. Proteger o erário público pode exigir reestruturações cuidadosas, negociações com órgãos de controle, arranjos jurídicos sofisticados. Nada disso se resolve “partindo pra cima”. Mas se o clima político é de linchamento, não há espaço para o tipo de trabalho técnico que poderia efetivamente proteger o patrimônio público.

O que a fala serena permite

Considere o que se perde quando abandonamos a fala serena. Perdemos precisão — porque argumentos complexos não cabem em gritos. Perdemos credibilidade institucional — porque juízes, auditores, órgãos de controle respondem a fundamentação, não a performance. Perdemos a capacidade de construir alianças amplas — porque a retórica inflamada mobiliza a base já convencida mas afasta potenciais aliados que não compartilham o mesmo vocabulário emocional.

Mais importante: perdemos sustentabilidade. A política do grito é exaustiva. Ela exige manutenção constante de intensidade emocional, num ciclo que inevitavelmente leva ao esgotamento ou à caricatura. Já a política do argumento pode ser sustentada no longo prazo, porque se baseia em raciocínio, não em adrenalina.

Isto não significa que nunca se deva elevar a voz. Há momentos em que a indignação precisa ser expressa com toda a força, em que a moderação seria ela mesma uma forma de violência. Mas estes momentos precisam ser distinguidos daqueles em que o trabalho necessário é técnico, meticuloso, pouco espetacular.

A fala serena permite algo que o grito não permite: complexidade. Ela cria espaço para nuances, para reconhecer que problemas difíceis raramente têm soluções simples, para construir estratégias que levam em conta a realidade institucional e não apenas o desejo de justiça imediata.

A política como espetáculo

O que aquele comentário revelava não era apenas uma divergência sobre tom, mas uma transformação mais profunda em como entendemos política. Quando esperamos que políticos sejam sobretudo performers de emoções, quando medimos sua qualidade pela intensidade de suas performances, quando confundimos catarse emocional com transformação efetiva, estamos subordinando a política à lógica do espetáculo.

Nesta lógica, o que importa não é o que se consegue realizar, mas como se parece ao tentar. Não é a solidez do caso jurídico, mas a ferocidade da denúncia. Não é a proteção concreta do patrimônio público, mas a performance convincente de quem está “lutando” por ele.

O paradoxo é que esta demanda por espetáculo pode ser, ela mesma, uma forma de passividade. É mais confortável consumir a emoção do confronto do que engajar-se na complexidade das soluções. É mais satisfatório ver alguém “partir pra cima” do que acompanhar o trabalho árido de construir um caso jurídico sólido. O grito nos dispensa da responsabilidade de pensar.

Há também uma questão de classe embutida nesta dinâmica. A exigência de performance inflamada favorece quem tem talento para o espetáculo, não necessariamente quem tem competência para governar ou para construir soluções. Privilegia a retórica sobre a técnica, a emoção sobre a estratégia. E assim, paradoxalmente, pode afastar da política precisamente as pessoas mais capazes de resolver os problemas que nos indignam.

Resgatar a dignidade do argumento

Talvez o desafio do nosso tempo seja reconhecer que nem toda urgência precisa ser expressa em volume. Que a verdadeira radicalidade pode estar justamente na recusa de substituir pensamento por performance. Que há uma coragem específica em manter a serenidade quando todos ao redor exigem espetáculo.

Isto não é apologia da moderação como virtude abstrata, nem defesa do “centrismo” como posição política. É reconhecimento de que diferentes situações exigem diferentes registros, e que a obsessão por um único registro — o do confronto performático — empobrece nossas possibilidades políticas.

O patrimônio público pode estar sendo dilapidado. As suspeitas de corrupção podem ser graves. A indignação é justificada. Mas a questão que permanece é: o que protege melhor o interesse público — a performance de indignação ou a construção meticulosa de um caso que possa efetivamente responsabilizar os culpados e preservar as instituições?

Talvez precisemos reaprender a valorizar o trabalho silencioso, a articulação paciente, a argumentação rigorosa. Talvez precisemos criar espaço para que a política seja também técnica, também complexa, também — por que não? — um pouco enfadonha, quando é isso que a situação exige.

Porque se queremos transformação real, e não apenas o consolo emocional de presenciar confrontos espetaculares, precisamos aceitar que às vezes a mudança soa exatamente como alguém inaugurando uma quadra poliesportiva: protocolar, técnica, pouco glamourosa. E que isso não é fracasso da política, mas precisamente sua realização mais madura.

A resposta pode ser menos espetacular do que gostaríamos. Mas é, talvez, a única que efetivamente funciona. E se conseguirmos distinguir entre o que nos satisfaz emocionalmente e o que nos protege concretamente, teremos dado um passo importante para além da sedução do grito.

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