O julgamento de Bolsonaro também é uma disputa de palavras, símbolos e estratégias
Um julgamento que vai além dos autos
O julgamento de Jair Bolsonaro no Supremo Tribunal Federal não acontece apenas entre juízes, réus e advogados. Ele também acontece diante de milhões de olhares atentos — nas redes sociais, nos jornais, nas rodas de conversa.
Por trás de cada argumento jurídico, existe também um esforço retórico: o de convencer, mobilizar, conquistar corações e mentes.
Afinal, não se trata apenas de provar algo. O objetivo é contar uma história convincente sobre o que está em jogo.
Neste artigo, vamos observar como a acusação e a defesa estão construindo suas narrativas. E por que isso importa — para a Justiça, para a democracia e para a nossa própria capacidade de entender a política com mais consciência.
O que cada lado diz — e como diz
De um lado, a Procuradoria-Geral da República (PGR) afirma que Bolsonaro agiu conscientemente para atacar a democracia. Seu discurso se apoia em três pilares:
- Gravidade dos atos – tentativa de deslegitimar o sistema eleitoral e as instituições democráticas.
- Risco institucional – ações que incentivaram ruptura institucional.
- Provas concretas – falas públicas, documentos, articulações reveladas.
Do outro lado, a defesa de Bolsonaro busca negar ou minimizar essas acusações com uma narrativa muito diferente:
- Vitimização – Bolsonaro como alvo de perseguição política.
- Liberdade de expressão – o ex-presidente teria apenas emitido opiniões.
- Descontextualização – os fatos estariam sendo interpretados de forma exagerada ou enviesada.
Ambos os lados usam expressões fortes, citações emblemáticas e tons calculados. Mas o que está em jogo vai além dos fatos — é a construção de sentidos.
Símbolos, memória e emoção
A acusação tenta situar Bolsonaro como uma ameaça real à ordem democrática. Ela invoca:
- A Constituição Federal como pilar da democracia;
- O histórico de outros regimes autoritários como alerta;
- A necessidade de responsabilização para preservar o futuro.
Já a defesa mobiliza símbolos emocionais, com forte apelo popular:
- A ideia de que Bolsonaro é “do povo” e foi traído;
- A liberdade como valor supremo, acima das instituições;
- A Justiça sendo usada como instrumento de censura ou vingança.
Essa disputa simbólica não é nova. Faz parte de julgamentos emblemáticos no Brasil e no mundo. Mas neste caso, ela se intensifica porque o país ainda vive as feridas abertas da polarização.
A linguagem como estratégia
Mais do que argumentos técnicos, o que mais impacta é como se fala. A acusação usa linguagem institucional, séria, direta. Quer demonstrar autoridade e responsabilidade.
A defesa aposta em frases de efeito, como “liberdade está sendo criminalizada” ou “quem luta pelo Brasil está sendo punido”. Quer gerar identificação emocional.
Ambas as partes sabem que suas palavras serão recortadas, comentadas, viralizadas.
Não se trata apenas de convencer os ministros do STF. A questão aqui é (ou lá) marcar posições no debate público.
Julgamentos também são performances
Por mais que seja um processo jurídico, um julgamento como esse se torna um evento público.
- O tom de voz dos advogados.
- A escolha das palavras.
- A postura corporal.
- A edição dos vídeos que circulam nas redes.
Tudo vira narrativa. Tudo comunica.
Quem acompanha apenas os trechos nas redes sociais pode ter uma percepção completamente diferente de quem lê os autos jurídicos. E é exatamente nisso que a disputa se dá: na percepção da sociedade sobre o que é justo, legítimo, verdadeiro.
O que a gente aprende com isso?
Aprendemos que a política não acontece só nos votos ou nas leis. Ela acontece também na linguagem. Na forma como as histórias são contadas.
É por isso que precisamos olhar para além do conteúdo técnico e começar a analisar os discursos como instrumentos de poder.
- Quais palavras são usadas para mobilizar medo ou empatia?
- Que imagens são evocadas para legitimar ou desacreditar?
- Que tipo de verdade está sendo construída?
Essa atenção é parte da nossa formação cidadã.Porque quem entende os discursos, também se protege melhor deles.
A disputa continua
O julgamento só começou terminou. E os argumentos continuam sendo refinados, reforçados, repetidos. Mas, independentemente do resultado final, é importante lembrar:
A linguagem importa.
Ela pode proteger a democracia — ou colocá-la em risco.
Por isso, seguir acompanhando com atenção crítica é uma forma de participação.
De defesa da verdade, da justiça e do comum.
Vamos conversar?
Percebeu algo curioso nos discursos desse julgamento? Compartilha com a gente.
Entender como os discursos são construídos também é um jeito de cuidar da democracia.





