Marina precisa aprender a perder?

Papel azul rasgado revelando a palavra "DEMOCRACIA" em fundo branco.

Quando contestar irregularidades não é birra — é defesa da democracia

“Marina precisa aprender a perder.” A frase tem circulado na mídia e nos discursos de algumas lideranças políticas desde que a Rede Sustentabilidade mergulhou em uma crise interna profunda que dividiu o partido ao meio. Repetida como mantra e replicada internamente por setores que se declararam vencedores, a sentença funciona como argumento definitivo para deslegitimar contestações judiciais, silenciar denúncias de irregularidades e encerrar qualquer debate sobre os rumos do partido.

Mas será mesmo sobre aprender a perder? Ou estamos diante de algo mais complexo: a confusão deliberada entre aceitar uma derrota legítima e submeter-se a métodos antidemocráticos?

Uma trajetória de derrotas e recomeços

Marina Silva não é estranha às derrotas. Pelo contrário: toda sua biografia política é marcada por elas.

Ela mesma costuma dizer, sem constrangimento: sempre foi minoria. Foi minoria dentro do PT, partido que ajudou a fundar. Foi minoria nas três disputas presidenciais que enfrentou — em 2010, 2014 e 2018 —, chegando perto mas nunca alcançando a vitória.

Perder não a paralisou. Ser minoria forjou sua identidade política.

A cada derrota, Marina recuou, reelaborou seus caminhos, reconstruiu projetos. Criou a Rede Sustentabilidade justamente para representar essa posição: a da minoria que não desiste, que disputa o debate público com outras ferramentas, que se recusa a reproduzir velhas práticas mesmo quando isso custa poder imediato.

Então não, não é sobre aprender a perder. Marina sabe perder. Conhece o gosto amargo da derrota legítima e as lições políticas que ela ensina. A questão é outra: o que se está perdendo — e como.

Quando o método destrói a legitimidade do resultado

Aprender a perder é, de fato, um exercício fundamental em democracia. Perder eleições, perder votações, perder disputas internas faz parte do jogo democrático. A maturidade política se constrói também na capacidade de aceitar que outros projetos tiveram mais força, mais apoio, mais adesão, seguir disputando dentro das regras.

Mas e quando as regras são rompidas?

Uma eleição interna legítima, conduzida com transparência, respeito ao estatuto partidário e às normas democráticas básicas, deve ser aceita com maturidade cívica. Mesmo que doa, mesmo que o resultado não seja o desejado, a derrota legítima se processa e a vida democrática continua.

Mas e quando a “derrota” vem embrulhada em denúncias graves e fundamentadas?

Quando há relatos consistentes de votos fraudulentos contabilizados em nome de pessoa falecida? Quando diretórios legítimos, em pleno funcionamento, são sumariamente anulados sem justificativa estatutária? Quando ocorrem intervenções arbitrárias que desrespeitam a autonomia das instâncias locais? Quando o próprio programa partidário — construído coletivamente e sacramentado em congressos deliberativos é rasgado para acomodar interesses circunstanciais? Quando só um grupo consegue filiar novos membros, enquanto o outro é sistematicamente bloqueado?

Contestar isso não é recusa em aceitar o resultado. É recusa em aceitar o método antidemocrático.

Democracia partidária não é apenas sobre votar

A democracia partidária não se sustenta apenas no voto. Ela se sustenta em um conjunto de condições que garantem a legitimidade do processo: transparência, lisura, respeito às regras pactuadas, preservação dos valores fundantes e tratamento equânime entre os grupos em disputa.

Quando esses elementos são corroídos, o que resta não é democracia. É disputa de poder travestida de democracia. E é exatamente isso que está destruindo a Rede Sustentabilidade por dentro.

A Rede não nasceu como mais um partido. Nasceu de uma proposta diferenciada de fazer política no Brasil: horizontalidade nas decisões, valorização da diversidade, compromisso intransigente com a sustentabilidade socioambiental, recusa ao fisiologismo, democracia interna real e não apenas formal, inovação nas formas de participação.

Eram elementos diferenciais que atraíram milhares de pessoas cansadas das engessadas e velhas práticas políticas: a possibilidade de construir um partido verdadeiramente participativo, com votações online abertas aos filiados, com decisões coletivas sobre diretrizes programáticas, com respeito radical aos estatutos, ao caderno de princípios e valores, ao manifesto fundante.

A Rede se propunha a ser laboratório vivo de novas práticas democráticas. Seu programa de sustentabilidade não era mera carta de intenções: era identidade, DNA, razão de existir. Foi construído coletivamente, debatido em inúmeros espaços sacramentado pela sociedade, que apostou no projeto por esses difereciais organizativo e o programa socioambiental.

Quando um grupo passa a desmontar, tijolo por tijolo, essas bases programáticas e institucionais — rasgando o programa partidário para acomodar anseio outros daqueles que são a sua identidade original, esvaziando os mecanismos de participação, transformando a horizontalidade em verticalismo tradicional — não está apenas vencendo uma disputa interna, está destruindo o próprio sentido da Rede. Está transformando um projeto inovador em mais uma sigla convencional do jogo político tradicional. Está traindo o pacto original com todos aqueles que se filiaram e deram seu apoio para a constituição deste partido, acreditando em algo diferente.

E aqueles que denunciam isso não estão sendo teimosos que não sabem perder. Estão sendo coerentes com o projeto que ajudaram a construir.

O Judiciário como último recurso democrático

Buscar o Judiciário, nesse contexto, não é sinal de má-fé, teimosia infantil ou incapacidade de aceitar derrotas. É, muitas vezes, o último recurso institucional de quem vê a democracia interna ruir e não encontra escuta nos canais próprios do partido.

Quando as instâncias internas são capturadas, quando o estatuto é desrespeitado, quando não há diálogo nem disposição para apurar denúncias, o que resta a quem se sente lesado? Silenciar em nome de uma “unidade” forjada? Aceitar passivamente o desrespeito às regras como preço da paz interna e tornar-se cúmplice da desconfiguração partidária?

Não. O que resta é recorrer às instituições republicanas que existem justamente para mediar conflitos que não puderam ser resolvidos internamente.

O Judiciário não é inimigo da democracia interna dos partidos. É, paradoxalmente, seu garantidor externo quando ela falha. Contestar judicialmente fraudes, intervenções arbitrárias e violações estatutárias não é golpismo, é, antes, exercício do direito democrático de defesa, de luta pelo restabelecimento da norma democrática ferida por práticas que não aderentes ao que ela se propõe.

O que estamos dispostos a aceitar como vitória?

Marina pode — e certamente sabe — perder quando perde de verdade. Quando o jogo é jogado com as cartas na mesa, quando as regras são respeitadas, quando a disputa se dá em condições minimamente equânimes. Aliás, ela está acostumada a dizer preferir perder ganhando que ganhar perdendo.

Mas todos nós, como cidadãos comprometidos com a democracia, precisamos aprender a distinguir:

  • Derrotas legítimas constroem cultura democrática. Elas ensinam, fortalecem a capacidade de renovação, testam a resiliência dos projetos políticos. São parte necessária da vida democrática.
  • Vitórias obtidas por métodos fraudulentos destroem a democracia por dentro. Normalizam o desrespeito às regras, ensinam que vale-tudo, criam precedentes perigosos que contaminarão disputas futuras. Aceitá-las passivamente não é maturidade, é cumplicidade.

A pergunta que precisamos fazer

A pergunta certa, portanto, não é “por que Marina não aceita perder?”.

A pergunta certa é:

“O que estamos dispostos a aceitar como vitória? Que tipo de democracia partidária queremos construir? Quais métodos consideramos legítimos — e quais devem ser intoleráveis, mesmo quando ‘nosso lado’ ganha?”

A resposta a essas perguntas dirá muito sobre o futuro não apenas da Rede Sustentabilidade, mas da cultura política brasileira como um todo. Porque quando normalizamos fraudes, autoritarismo e desfiguração de processos democráticos “em nome da unidade”, quando silenciamos denúncias “para não criar divisão”, quando desqualificamos contestações legítimas como “birra de quem perdeu”, não estamos fortalecendo nada. Estamos, na verdade, erodindo as bases mínimas de confiança que permitem que a democracia funcione.

O que está em jogo é maior que um partido

A crise da Rede Sustentabilidade importa para além dos filiados ao partido. Ela é sintoma de um problema mais amplo: a dificuldade que temos, como sociedade, de distinguir disputa legítima de disputa destrutiva, de separar a defesa de princípios da defesa de poder pelo poder, de diferenciar coerência democrática de teimosia pessoal.

A justiça dirá se as ações ajuízadas são válidas ou não. Mas o direito de contestar, de buscar reparação, de recusar métodos antidemocráticos, esse direito não pode ser desqualificado de antemão com frases feitas e acusações vazias.

Quem contesta irregularidades não precisa “aprender a perder”. Quem frauda processos é que precisa aprender que nem toda vitória é legítima.

E todos nós precisamos aprender que defender a democracia — dentro ou fora dos partidos — às vezes exige o incômodo, o conflito, a recusa em fazer as pazes com o inaceitável.

Política não é só lá em cima. É aqui, entre nós. E começa no método, a defesa e construção de métodos democráticos no fazer política, sem o qual não há cidadania.

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