Todo dia me deparo com pessoas angustiadas com a política. É uma angústia difusa, que se manifesta de formas diferentes: há quem esteja decepcionado porque a política parece cada vez mais incapaz de responder aos desafios que se apresentam. Há quem não compreenda o que ela é, como se dá, para que serve. Há quem sofra porque a política divide quando, a priori, deveria agregar. E há quem se assuste com a violência manifesta na fala e nos modos de quem faz política.
Essa angústia não é abstrata. Ela acontece nas mesas de jantar, nos grupos de amigos, nas famílias. A política se tornou simultaneamente inescapável e insuportável. Estamos todos imersos nela, sufocados por ela, mas muitos se sentem completamente alheios a ela.
A angústia que percebo nas pessoas tem muitas camadas. Há quem não entenda o que é essa política que parece falar uma língua própria, cheia de códigos e disputas obscuras. Há quem entenda demais e por isso mesmo se decepcione: a política que deveria costurar respostas aos nossos dilemas coletivos parece cada vez mais incapaz de fazê-lo, perdida em jogos que não nos incluem. E há ainda a violência — não apenas a das palavras que se tornaram armas, mas dos modos, dos gestos, daquilo que os políticos transmitem sobre o que é legítimo no trato com o outro.
O mais paradoxal é que a política, que em sua etimologia nos remete ao cuidado com a pólis, com o comum, se tornou justamente aquilo que nos divide. Famílias se estranharam, amizades antigas viraram pó, conversas à mesa viraram campos minados. Como algo que deveria nos reunir em torno do que compartilhamos — uma cidade, um país, destinos entrelaçados — se transformou no que melhor sabemos fazer para nos afastar?
Mas há algo ainda mais revelador nesse desconforto todo: a quantidade de gente que faz política no seu cotidiano sem reconhecer isso como político. Pessoas que trabalham com educação, saúde mental, arte, assistência social, que lidam diariamente com as feridas mais profundas da nossa sociedade, mas que se sentem sem repertório para conversar sobre política. Como se política fosse apenas aquilo que acontece nos gabinetes, nos plenários, nas articulações partidárias.
Quando alguém que dedica sua vida a cuidar de pessoas, a enfrentar desigualdades, a construir possibilidades onde parecia não haver nenhuma, diz que “não sabe falar de política”, há algo profundamente errado com o que a política se tornou. Porque essas pessoas não apenas sabem falar de política — elas fazem política todos os dias. Só não reconhecem como tal porque a política se fechou numa linguagem cifrada, num jogo de aparências que parece exigir iniciação prévia.
Esse abismo entre quem milita partidariamente e quem milita na vida cotidiana é, talvez, um dos maiores problemas da política contemporânea. Criamos uma especialização que afasta justamente quem mais tem a dizer. E aí nos espantamos quando a política parece descolada da realidade, incapaz de responder às urgências que quem está na linha de frente enxerga todos os dias.
O que me assusta mais, porém, não é essa distância que se criou. O que me tira o sono é observar duas movimentações simultâneas entre pessoas que eu admiro, especialmente entre os jovens.
De um lado, vejo gente interessante, inteligente, cheia de energia e ideais, sendo paulatinamente capturada pelas velhas práticas que deveríamos ter superado há gerações. O coronelismo de sempre, disfarçado com roupagens novas. O cerceamento da liberdade de apoiadores, como se pertencer a um projeto político significasse abrir mão da própria capacidade de pensar. A lealdade que se transforma em obediência cega. A política como propriedade privada de alguns, não como bem público de todos.
É doloroso ver pessoas que chegaram cheias de disposição para renovar a política sendo amansadas pelos vícios antigos do jogo. Como se, para estar dentro, fosse preciso aceitar as regras não escritas que perpetuam exatamente aquilo que se dizia querer transformar. A captura é sutil: começa com pequenas concessões, seguidas de justificativas (“é estratégico”, “é assim que funciona”, “depois a gente muda isso”), até que, sem perceber, estão reproduzindo os mesmos gestos autoritários que criticavam.
De outro lado — e talvez ainda mais preocupante — vejo gente bacana simplesmente desistindo. Pessoas que acreditavam, que participavam, que votavam com esperança, agora declarando que não vão mais às urnas, que não querem saber de política, que “é tudo igual mesmo”. A decepção virou desistência, e a desistência virou quase um ato de preservação da própria sanidade.
Essas duas tendências — a rendição aos velhos vícios e a desistência pura — me parecem faces da mesma moeda. Ambas são derrotas da política como possibilidade de construção coletiva. Porque quando os bons se rendem às práticas ruins, o jogo continua viciado. E quando os bons desistem de jogar, o jogo fica inteiramente nas mãos de quem nunca se incomodou com as trapaças.
Eu insisto em acreditar — talvez teimosia, talvez última reserva de esperança — que a política é, sim, ferramenta fundamental para que enfrentemos juntos os desafios que, sozinhos, jamais conseguiremos superar. Clima, desigualdade, violência, tecnologia desregulada, tudo aquilo que nos atravessa exige coordenação, exige decisões coletivas, exige política.
Mas a política que temos não é a única política possível.
Talvez o primeiro passo seja reconhecer que quem cuida, quem educa, quem cria, quem acolhe, já está fazendo política. E que a linguagem hermética, os códigos internos, a militância partidária como único caminho legítimo de participação, são construções que servem mais para manter alguns dentro e outros fora do que para fortalecer a democracia.
Quando pessoas profundamente comprometidas com a transformação social se sentem à parte do debate político, o problema não está nelas. O problema está em quem transformou a política num clube fechado, quando ela deveria ser a praça mais aberta que existe.
Talvez seja hora de começarmos a perguntar: o que estamos dispostos a não aceitar, mesmo quando nos dizem que “é assim que funciona”? Que tipo de prática política nos mantém humanos, capazes de discordar sem nos odiar, de disputar sem nos destruir? Como fazemos para que a política volte a ser uma conversa possível entre gente diferente, sem que uns precisem se sentir desqualificados?
A decepção com a política é legítima. A indignação com seus rumos é necessária. Mas precisamos transformar isso não em desistência, nem em rendição às velhas práticas. E, principalmente, precisamos abrir espaço para que a política seja novamente reconhecível por quem já a pratica todos os dias, mesmo sem saber nomeá-la assim.
Porque o ar está rarefeito para todos nós. E só vamos voltar a respirar quando a política deixar de ser território exclusivo de poucos e voltar a ser aquilo que sempre deveria ter sido: o espaço onde construímos juntos, cada um com seu repertório próprio, as respostas para os problemas que só juntos podemos enfrentar.




